O último homem do mundo

Deus acordou engraçadinho. Queria provar ao mundo que ele existia de fato. Ele passou uns sete dias pensando em um jeito diferente de surpreender a humanidade. Enviar um novo Messias é chato, o cara vai sofrer à toa e, de novo, a história de filho de Deus não vai colar. Imagina, então, achar uma Maria que tivesse a coragem de encarar essa. Hoje em dia, nem pensar. Também incluiu como opções algumas pragas, tufões ou a criação de um novo gênero de desastre que realmente assustasse os homens, os fizesse pensar no quanto estão estragando o planeta. Mas, depois do tsunami na Tailândia, o furacão Katrina, nos Estados Unidos, nada mais assustaria tanto a humanidade. Além disso, Deus não quer matar, só dar um sustinho.

ultimo homemCansado e sem ideias originais, resolver ir a campo. Desceu na Terra e ficou observando os homens e mulheres, ouvindo seus pensamentos, refletindo sobre eles, mas era tudo tão entediante e óbvio. “Ainda vou ficar milionário”, “Amanhã vou falar poucas e boas para o meu chefe”. Afffe, booooring, pensou o divino.

Isso até que ele encostou ao lado de uma mocinha que estava com raiva dos homens. Sem paciência, por conta das mil vezes que havia sido enganada, ela ficava olhando ao seu redor, tentando imaginar a personalidade de cada homem que estava no vagão daquele trem. Um passatempo para a viagem de 40 minutos.

Viu um nerd com fones de ouvido, um skatista tatuado, um homem de negócios (de terno e gravata) e outros tipos. Até que viu um moço meio a meio. Ele usava camisa e calça social, mas sem gravata. Era tudo meio desengonçado nele.  Ele mascava chiclete, ouvia música em um fone de ouvido branco, bem brega para o gosto da moça. Depois de analisar friamente e também reprovar esse rapaz, imaginando que ele seria um babaca completo _ um daqueles coxinhas que vota nos caras errados, ouve as músicas mais óbvias e só joga videogame nos finais de semana_. Foi quando a sua mente parou e pensou: “Eu não ficaria com ele nem se fosse o último homem do mundo”.

Bazinga! Eureca! Deus havia encontrado a solução!

Antes que um deles descesse em alguma estação mais próxima, Deus agiu rápido. Causou um apagão na energia, e quando a luz voltou. Adivinha? Só estavam lá os dois. A menina tomou um baita susto porque viu seu pensamento atendido e os dois tiveram que conversar:

– Você tá vendo o que estou vendo?

– Sim, mas não estou entendendo nada. As pessoas sumiram, é isso?, respondeu o rapaz.

– Pior que eu estava justamente…bom, deixa pra lá. O trem parou não? Vamos tentar pedir ajuda?

Eles tentaram de tudo. Acionaram alarmes, bateram, gritaram, mas o condutor, pelo jeito, também havia sumido. Em uma hora, eles se deram conta de que todos os funcionários do metrô também. E as outras pessoas que poderiam estar na estação?

– Será que é um ataque alienígena?, questionou o rapaz

– Ah, por favor, você não é homem suficiente para nos tirar daqui, e ainda, eu tenho que ficar aguentando essas teorias sem pé nem cabeça? Poupe-me

– Oi? Um monte de gente some de um vagão, e sou eu quem está maluco?

– É, tá certo, alguma coisa de muito errado está acontecendo.

Foi só a mocinha reclamar, que as portas se abriram. Eles estavam no meio do túnel e tiveram que andar até uma estação mais próxima. Foram quilômetros. Depois, eles saíram para as ruas e começaram a se dar conta de que não havia ninguém na principal avenida da cidade. Ligaram para os familiares, amigos, mas ninguém atendia. Tudo começou a ficar desesperador. Eles choraram, pediram perdão por tudo que haviam feito, foi um desespero só.

– A culpa é minha! Eu disse a Deus que eu não te daria atenção nem se você fosse o último homem do mundo…, chorava a mocinha.

– O que? Eu nem te conhecia, que ousadia! Além do mais, depois sou eu que tenho ideias malucas? Você acha que Deus te ouviria assim? Primeiro, ele nem existe, se existisse, porque atenderia só o seu desejo?

– Eu não faço a menor ideia, mas agora tenho certeza de que você é muito chato. Não sei quem sumiu com todo o mundo, só sei que eu ainda me mantenho firme no desejo de ver você longe daqui, mesmo que seja o último ser humano com quem vou falar.

Enquanto isso, o Todo Poderoso levou toda aquela cidade (com 3 milhões de habitantes) para um salão em um universo paralelo. Contou a história toda ao pessoal e abriu um telão, em que eram transmitidas ao vivo as imagens do casal. O povo, atônito a e perdido, sem entender também o que estava acontecendo, ficou colado na tela. Era o primeiro BBB divino. Quem iria perder?

Lá embaixo, a mocinha deu as costas ao mocinho. Seguiu andando e pensou. “Se eu tenho todo esse poder, vou encontrar no meu caminho alguém que valha mais a pena.” Ela atravessou pontes, ruas, vielas, invadiu um restaurante para matar a sede e a fome. No dia seguinte, ela se deparou com um anjo. Claro, ela foi logo pedindo explicações:

– Você sabia que era culpada pelo sumiço de todos os homens da Terra?, exagerou o anjo.

– Meu Deus! Então é verdade? Ele estava me ouvindo? O que devo fazer? Era só uma piada. Deus não tem bom humor não?

O anjo disse aos risos:

– Bom-humor não falta a Ele. Olhe lá no canto, à sua direita.

Ela viu uma câmera e achou, por alguns instantes, ter sido vítima de uma megaprodução de um programa de TV. Mas, não. A cidade inteira estava assistindo ao vivo a pegadinha de Deus. Chocada com o que tinha presenciado, saiu correndo pelas ruas, aguardando que a maldição tivesse acabado. Lá de cima, todos no auditório morreram de rir e, depois, assustados, perguntaram-se o que estava acontecendo.

god

Deus, então, voltou a falar com a multidão.

– Então, pessoal. Só queria deixar claro que eu estou aqui e estou vendo e ouvindo tudinho. Garanti até a cobertura de imprensa de outras cidades. Avisei alguns repórteres de que essa cidade sofreria um grande desastre natural. Agora que está tudo registrado, voltem para as suas casas, mas vê se lembram de mim, vai? Disse Deus, tão carente.

Em sua corrida na Terra, a mocinha então, encontrou um rapaz com uma máquina e um bloco na mão.

– Moço, moço, você viu o que aconteceu? As pessoas já voltaram?

– Você é daqui, senhorita? Sou jornalista e vim cobrir um desastre natural, previsto pelos meteorologistas da minha cidade. Só ainda não entendi o que de fato ocorreu. Parece que você será minha primeira entrevistada.

Enquanto a mocinha explicava tudo ao repórter que ria e, ao mesmo tempo, ficava intrigado, as pessoas foram voltando, pouco a pouco. A conversa entre os dois foi tão boa, que ela acabou ficando amiga do repórter e nunca mais eles deixaram de se falar.

Ela só tinha a mesma certeza: “Eu não ficaria com aquele cara, nem se ele fosse o último homem do mundo.!”

Fabi Schiavon

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