A Moça do Lenço Amarelo

Era uma casa não muito engraçada. Grandiosa, com um belo quintal, um lindo jardim. Lá morava uma família jovem. Casados há poucos anos, eles tinham dois filhos pequenos. Viviam bem, felizes, mas confinados, protegendo-se de um bairro perigoso, sujo, hostil.

Era preciso mudar de lugar. Anos depois, saíram de lá. Os pais encontraram uma casa menor, enquanto os filhos foram atrás de sua independência.

Dos dois irmãos que cresceram lá, Antonio voltou. Agora era uma tia dele que tomava conta da casa. Em uma visita depois de anos, ele entrou, olhou para fora da janela do quarto maior e viu o quintal. Dessa vez, ele não viu as flores do canteiro. Atrás das plantas, o quintal agora estava ocupado com muita gente trabalhando, com roupas que pareciam velhas e fora de moda. Todos conversavam muito.

Uma mulher chamou mais a sua atenção. Ela tinha um lenço fino envolta da cabeça, que ajudava a formar um topete. Era de um amarelo claro que combinava com os tons de marrom do vestido. Ela o olhou fixamente, e ele assustado, correu para a cozinha.

Tia zuzu estava passando o café com toda a calma do mundo, mas viu que ele estava pálido.
– Está tudo bem com você, meu filho?

– É, claro, claro. Só fiquei curioso. A senhora quer ajuda com as flores lá fora?

– Por que essa pergunta agora? Acha que minhas flores estão maltratadas?

– De jeito nenhum tia, é só preocupação de sobrinho!

– Hum, já sei. Você gosta de flores?

A cabeça dele girou. Ele não lembrava a última vez que teria sentido cheiro de terra. Era óbvio que ele não entendia do assunto e nem tinha interesse em entender, em um primeiro momento. Em segundos, ele procurou uma resposta em sua cabeça que não o comprometesse, mas que o ajudasse a entender o que acontecia naquele jardim. Respirou fundo, abriu um sorriso e disse:

– Sim. Gosto muito, mas eu não tenho muito jeito com isso. Seria legal se a senhora pudesse me dar algumas dicas, O que acha?

– Claro! Venha na semana que vem. Você estará de férias, não? Assim teremos a tarde toda para deixar o jardim em ordem e se divertir com plantação!

– Combinado, Tia.

lenço

O Encontro

A semana passou, e ele voltou. Quanto tia Zuzu preparava um café para que eles não começassem a trabalhar de estômago vazio, Antonio foi xeretar a janela. Ele respirou fundo, correu para o quarto e olhou, morrendo de medo, de ver a mesma cena. Ela estava lá. A cena podia não ser a mesma, mas a moça do lenço amarelo estava lá, com a mesma roupa, conversando e trabalhando. Desta vez, os seus olhares não se encontraram.

Tia Zuzu o convidou para o café. Ele comeu ansioso cada bolinho de chuva que estava em cima da mesa. Procurou encurtar o assunto para acabar com tudo aquilo de uma vez. Antonio havia passado a noite quase toda pensando naquela mulher. Ela era bastante bela, com um olhar sublime, que lhe dava paz.

– Vamos começar, então?, exclamou a tia cheia de vontade.

Levou um segundo, mas na cabeça de Antonio foram muitos minutos que levaram até eles cruzarem pela casa para chegar à porta dos fundos. Assim que eles passaram pela porta, Antonio a viu. Seu coração palpitava, e ele esperava o momento em que a tia se aproximasse dela para que os dois pudessem ser apresentados. A tia foi caminhando e falando sem parar sobre as flores do largo canteiro. Deu detalhes de quando comprou cada muda, quanto custou, selecionou as que mais gosta e nada de chegar naquele ponto de lá do jardim.

A esse ponto, Antonio já se preocupava com a atitude da tia, que parecia estranha. Ele decidiu acelerar o processo e perguntar sobre a flor que estava sendo cuidada pela bela moça do lenço amarelo. Seria impossível não iniciar qualquer conversa dessa forma.

– Tia, qual o nome daquela flor? Eu não lembro de tê-la visto antes.

– Claro! é um Bico de Papagaio, bastante rara. Eu mesma não entendo como ela sobrevive há tantos anos.

Foi em vão a tentativa de Antonio. Assim que eles se aproximaram da flor, todos aquelas pessoas desapareceram de sua frente.

Ele veria a mulher mais uma vez: no álbum antigo de sua família.

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