Um grito em silêncio

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Betinha estava irritada. Muito irritada. E não sabia nem porquê, mas logo colocou a culpa na cidade grande. Ah, aquele falatório incessante, aquelas duras horas de trabalho, as pessoas que sujavam as ruas, o caminhão de lixo que a acordava todas as madrugadas.

Betinha teve uma ideia. Arrumou as malas e foi passar uns dias em um retiro. Encontrou um lugar bem longe para que, ao percorrer aquela longa estrada, pudesse esquecer, aos poucos, os ruídos, os falatórios, a falta de educação alheia.

Depois de horas sentada em um ônibus não muito confortável, ela avistou uma bela paisagem.

Betinha chegou lá. Desceu do ônibus e olhou, satisfeita, para as montanhas. Respirando fundo, sussurrou: “Enfim, só paz e natureza!” Ela jantou e, logo depois, foi para o seu quarto.

Betinha dormiu feito um anjo. Acordou assustadoramente cedo para os seus padrões, tomou o café da manhã, participou das aulas de yoga e meditação, tudo com grande satisfação. Ela almoçou e ouviu o gongo tocar – que anunciava o início do período de silêncio.

Silêncio. Momento perfeito para relaxar ainda mais, escrever, filosofar, pensar ou até desenhar.

Só que não. É que ela estava dormindo em um alojamento só para mulheres. As paredes eram finas e era possível ouvir até a respiração de quem estava no quarto vizinho. Betinha tinha escolhido ficar sozinha, mesmo em um quarto com duas camas. A ideia foi ótima, mas ela não sabia que isso não resolveria o seu problema. Quando Betinha pegou o lápis para começar a jogar as suas emoções no papel, algo estranho aconteceu.

Betinha pulou de susto. Duas vozes estridentes começaram a ecoar do quarto ao lado. Pareciam senhoras, e eram senhoras do interior. Depois de um dia cheio de atividades relaxantes, elas estavam alucinadas para dividir as suas experiências. Enquanto Betinha queria desabafar com o caderno, as duas senhoras desabafavam sobre seus divórcios, meteram o pau nas cunhadas, nas vizinhas. Naquela noite, ninguém saiu ileso. Era de dar dó.

Betinha deu graças a Deus por não ser um parente próximo das suas vizinhas. Depois de algumas horas, começou a pensar que fazia parte de um quadro de pegadinhas de algum programa de TV, mas ela olhou por todos os lados e  não havia câmeras. Betinha dormiu e, no dia seguinte, decidiu fazer uma caminhada. Pegou uma trilha longa e distante.

Betinha voltou a tempo para a meditação. As regras do lugar davam a liberdade de não falar com ninguém, nem mesmo usar gestos. Era o sonho de Betinha, não precisar se comunicar com nenhum ser humano. Quem disse que isso seria possível? Enquanto caminhava para a sala de meditação, Betinha cruzou com uma das senhoras do quarto ao lado. Não adiantou disfarçar, uma delas abriu um baita sorriso – em silêncio – para Betinha. Contrariada, mas querendo ser gentil, Betinha sorriu de volta.

No caminho para o quarto, Betinha correu para não se encontrar com ninguém e deitou abraçada com seu caderno de anotações, esperando que as palavras viessem. Ela respirou profundamente e quando soltou o ar, ouviu bem embaixo da sua janela. “Veja só Berenice, como esse terreno está sujo! Como pode um lugar como esse ter tanto plástico no meio da natureza? Eles mesmos não sabem que isso é energia ruim?”

Sim, claro, as senhoras escolheram a janela de Betinha para conversar. E ainda era horário de silêncio – não entre elas. “Clarice, se eu tivesse um rastelo aqui, já limpava isso tudo menina”. E, assim, a conversa durou quase uma hora. Parecia ter sido um dia inteiro na cabeça de Betinha.

Betinha conseguiu dormir. Desta vez, decidida a acordar e conversar com o guru, aquele que tem todas as respostas. Ela estava inquieta demais com toda aquela situação e precisava de ajuda. Na verdade, ela adoraria presenciar uma bronca do guru naquelas senhoras falantes.

Betinha acordou e foi de cabeça erguida ao encontro ao guru. As senhoras também foram. Desta vez, elas nem levantaram a cabeça. Sem sorrisos, sem acenos, sem comentários. O guru deveria intimidá-las. Logo, Betinha sentiu raiva por ver que a sua vingança estava indo por água abaixo. Betinha sentou e esperou pelo guru.

Betinha levantou a mão e perguntou: “as pessoas falam demais, e isso me incomoda. Até busquei um retiro para isso. O que devo fazer?”

“Compre um protetor auricular. Se a crise não passar, talvez esparadrapos resolvam”, respondeu o grande guru

Todos riram da resposta, inclusive as senhoras.

E Betinha continuou irritada

Fabi Schiavon

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